A arquitetura hospitalar sob a ótica de um paciente na UTI

“Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um voo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal”
(Fernando Brant e Lô Borges)

Da janela lateral do quarto de dormir, vejo a Igreja do Calvário na Avenida Brasil, vejo os muros brancos e invisíveis da cidade, sinto os primeiros raios solares que despontam logo atrás do edifício do InCor, lá no alto do espigão que cruza a Avenida Dr. Arnaldo e segue pela Avenida Paulista, vejo um sinal de glória a menos de 2 km da janela lateral do meu apartamento na Vila Madalena, uma energia que tinge toda cidade de dourado.

Em setembro de 2020, entrei na fila de transplantes de coração do InCor, e, no dia 6 de junho de 2021, fui internado para aguardar uma doação de coração pois meu quadro clínico se deteriorava rapidamente. Quando cheguei, o quarto tinha dois leitos e uma janela lateral com vista para a Dr. Arnaldo, embelezada por um muro branco e o cemitério do Araçá, e à direita dava para ver os prédios da Paulista.

Fui até a janela e pude ver, do alto do 7º andar do hospital, como os espaços aéreos eram mal utilizados naquele complexo hospitalar. Pequenas edificações poderiam acomodar hortas orgânicas com facilidade em seus tetos, verdadeiras áreas verdes que dali aflorariam como as grandes fazendas urbanas de Portland, nos Estados Unidos.

Tenho certeza que não faltaria nem capital humano nem financeiro para isso. Daria para envolver pacientes, médicos, enfermeiros, ativistas e voluntários, que mexeriam com a terra. Empresas privadas poderiam ajudar o instituto a financiar a primeira produção local de alimentos orgânicos e aplicativos poderiam compartilhar a ideia. Teríamos ingredientes para compor um cardápio mais saudável e alimentar quem está lá doente.

Enquanto sonhava, fui transferido para a UTI. Precisava tomar uma medicação que só pode ser administrada com atenção médica 24 horas por dia. Com os remédios vieram as restrições: eu não poderia mais me mover, sair da cama, fazer nenhum esforço em função dos acessos com drogas que estavam sendo aplicadas na minha veia de forma contínua e de um balão intra-aórtico instalado.

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O novo espaço, no 4º andar, era um quartinho pequeno onde cabiam meu leito, os instrumentos de monitoração, um pequeno armário, uma TV e só. A vista do leito era a sala das enfermeiras. Um dia, descobri por acaso que havia uma janela atrás do meu leito e pedi à enfermeira para abrir a persiana para que eu pudesse receber a luz solar e pelo menos sentir que a vida nascia em algum lugar.

Peguei minha câmera do celular e consegui tirar uma foto. Foi então que eu descobri que aquela não era uma paisagem qualquer. Meu quarto dava para um bosque de pinheiros. Só que eu não podia virar para trás para vê-lo e tive que me contentar sentindo como seria o nascer e o pôr do sol ali, restabelecendo e apaziguando o ritmo na terra e fazendo com que a luz da manhã desse lugar a um lado mais sombrio do quarto à noite.

Era difícil entender, após quase dois meses internado na mesma UTI, que aquele espaço não era meu lugar, não me conectava com nada, mas também não era apenas um quarto de dormir. Ali não era um “não lugar”, era onde eu passava toda minha existência singular e momentânea, uma ocasião, a rigor, de vida ou morte. Mas eu estava apenas vendo a vida passar, olhando para uma parede e uma TV que ficava boa parte do tempo desligada.

Parecia que meu prazo de validade estava se esgotando e, mesmo assim, não queria perder tempo vendo TV. E o duro é que, não podendo receber visitas, tenho saudades da minha esposa, dos meus filhos, dos amigos… da minha vida. A relação com os enfermeiros, os médicos e a própria doença cria uma espécie de família impossível, disfuncional, mas ainda assim algo íntimo e baseado na confiança, no cuidado e na entrega.

Mas, se as instalações hospitalares são, a princípio, adequadas ao paciente, talvez falte um pouco de tato na hora de projetar as UTIs em si. O que percebo como quem está aqui internado é que os caminhos no hospital são tortuosos, a circulação é confusa, os fluxos são interrompidos, os elevadores distantes, as macas não são preparadas para receber tantas parafernálias, o ar-condicionado central não funciona direito, as janelas estão do lado errado… Enfim, nenhum local foi pensado para otimizar espaço e aliviar a vida dos pacientes.

Não por acaso, ainda em 2003, o governo federal lançou a Política Nacional de Humanização (PNH) para efetivar os princípios do SUS no cotidiano das práticas de atenção e gestão, qualificar melhor a saúde pública e observar com maior cuidado a implantação de uma ambiência adequada nos centros de saúde.

A ambiência leva em consideração a criação de espaços mais acolhedores que respeitam a privacidade e um projeto arquitetônico de acordo com as necessidades dos pacientes. Na prática, porém, nem sempre isso acontece: os espaços permanecem frios, impessoais, tediosos e nada inteligentes. Aqui, por exemplo, não tem biblioteca… não tem sequer um vaso de planta. E hoje fica fácil justificar: tudo culpa da Covid-19.

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem um laboratório de psicologia ambiental que mantém um curioso cruzamento entre as áreas de psicologia e arquitetura. Sua meta é entender e demonstrar como ambientes bem projetados impactam nosso estado mental e ajudam na recuperação de pacientes. A ambiência pode reduzir o estresse e a carga negativa para quem já enfrenta distúrbios psicológicos ou crises psicossociais, por exemplo.

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Essas questões foram abordadas no livro Ambientes Restauradores, organizado pelas pesquisadoras Bettieli Barboza da Silveira e Maíra Longhinotti Felippe. E hoje há milhares de publicações e artigos técnicos comprovando seus benefícios mundo afora. Porém, embora o assunto não seja novo, ainda está relegado ao ostracismo. Pequenas reformas já fariam jus ao lema de instituições como o InCor, baseadas em ciência e humanismo.

É preciso também escutar mais o paciente para entender a falta que faz uma janela, a entrada dos raios solares, uma poesia… E o incômodo causado por ruídos, certas cores e padrões. Mesmo em centros médicos de ponta, como este que é o maior local de estudos sobre o coração da América Latina, ainda falta transformar as habitações em ambientes mais propícios à interação humana.

A boa notícia é que dá para mudar. E eu lanço um desafio, enquanto aguardo um coração novo. Posso ajudar a pensar em uma nova UTI sob a visão do paciente. E, por que não, ainda servirei como voluntário nas hortas orgânicas no telhado do InCor. Topam, gestores?

* Lincoln Paiva é designer, especialista em planejamento de cidades e doutorando em arquitetura do Laboratório de Políticas Públicas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP)

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