As descobertas e as lições da variante Delta do coronavírus

Para os vírus, errar é uma necessidade de sobrevivência. Conforme eles vão se reproduzindo, um ou outro erro acaba sendo introduzido no genoma das suas crias virais, de um modo aleatório. Isso cria um enxame de vírus gêmeos não idênticos, em quantidades diferentes no meio dessa sopa viral. Mas sempre tem um grupinho desses gêmeos que se destaca — e que domina os demais.

Isso tudo acaba preparando esse enxame viral para o que der e vier. Se criamos imunidade contra os dominantes, os menos representados, se tiverem mutações boas, tomam o lugar daqueles. Se usamos um antiviral, sempre vai haver aquela minoria que tem genes mutados e consegue escapar. E é assim que os novatos ocupam a posição dos antes dominantes, agora extintos, mais ou menos como acontece com as bactérias resistentes a antibióticos.

Nós, hospedeiros, temos um genoma muito mais complexo do que os dos vírus. Um dos motivos é que nosso genoma é capaz de se corrigir quando vai se multiplicando. Errar é viral, não é humano, diria um ditado. Se formos comparar a velocidade de evolução dos genomas virais e do nosso, seria como botar lado a lado um ônibus espacial (os vírus) e uma tartaruga (a gente).

Desde que passamos a conhecer mais intimamente o coronavírus por trás da Covid-19 em janeiro de 2020, encontramos uma série de variações em seu genoma que o diferenciava do coronavírus original de 2019. Essas diferenças são como impressões digitais, e os coronavírus que compartilham as mesmas variações são chamados de variantes.

Passando a usar letras gregas para dar nome a elas, é assim que temos agora as variantes Alfa, Beta, Gama, Delta, Epsilon, Eta, Iota, Kappa e Lambda.

A variante Delta do coronavírus foi detectada pela primeira vez em dezembro de 2020 em pacientes da Índia (mas pode ter surgido em qualquer outro lugar do mundo) e já foi identificada em dezenas de países (inclusive o Brasil). Tornou-se a variante de maior sucesso em várias nações (ainda não por aqui). Mas o que ela tem de especial?

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Quando nos infectamos pelo coronavírus, criamos uma imunidade que pode durar alguns meses. Depois disso, estamos abertos a uma segunda infecção pela mesma variante que nos infectou antes ou por uma outra variante. Se essa outra variante tiver maior capacidade de fugir da imunidade despertada pela primeira, o êxito dela será grande.

Aos poucos, uma variante vai substituindo a outra, escalando o pico do sucesso, até ser escanteada por uma nova  concorrente. Essa é uma habilidade da Delta atualmente. Mas, eis uma boa notícia, a vacinação completa tende a proteger contra todas as variantes circulando por aí.

E, afinal, a Delta é mais transmissível ou mais agressiva que as demais? Sabemos que ela se replica em maior quantidade e mais precocemente no organismo. Mas isso não quer dizer que seja mais agressiva, pois não foi encontrado um mecanismo que mostre que alguma parte dessa variante mate mais rapidamente nossas células.

Alguns pedaços da proteína de espícula da variante Delta podem permitir que o vírus se ligue com mais força às células e as invada com mais eficiência. Quando tomado em conjunto, porém, tudo isso nem sempre significa que o vírus é mais transmissível: ele pode estar sendo mais transmitido sem ser mais transmissível por causa do nosso mau comportamento.

Usar máscaras protege contra todas as variantes do coronavírus. Manter distanciamento também. O mesmo vale para as vacinas e as regras de etiqueta de higiene, como lavar as mãos. Também se aplica ao protocolo de testar, isolar e tratar os doentes — e buscar seus contactantes.

O vírus muda, nosso esquema de defesa nem tanto. Se relaxarmos nas medidas de proteção, pode ser que variantes muito mais agressivas de fato venham a surgir. E, aí, até o alfabeto grego será insuficiente para nomeá-las.

Comenrários

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