Atraso na reabilitação prejudica a saúde de quem teve um AVC

Existem dois tipos de acidente vascular cerebral, o AVC. O mais incidente é o isquêmico, quando ocorre uma obstrução no vaso sanguíneo que irriga o cérebro. Já o AVC hemorrágico, menos comum, se dá após o rompimento de uma artéria ali. Apesar de o problema ser a segunda maior causa de mortes no mundo e a principal razão de incapacidade, ainda precisamos ampliar a conscientização e a capacitação da sociedade para lidar com ele.

O manejo do AVC no Brasil envolve desafios que começam na demora do reconhecimento precoce dos seus sintomas e atraso no encaminhamento para atendimento médico. O acesso a tratamentos de ponta no SUS e mesmo em muitos segmentos da rede privada é escasso, ocorrendo falhas na condução da reabilitação no pós-AVC.

Além das medidas de prevenção de recorrência de um novo AVC, uma série de terapias no contexto do atendimento multidisciplinar contribuem para a saúde, a qualidade de vida e a reinserção do paciente na sociedade.

Os tratamentos no pós-AVC variam de acordo com os tipos e a gravidade das sequelas, mas, em geral, a reabilitação consiste em sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, uso de medicamentos e a aplicação de toxina botulínica.

Estima-se que tenhamos 1 milhão de pacientes com espasticidade pós-AVC no Brasil, uma consequência que acomete 30% das pessoas após um derrame. Trata-se de um tipo de rigidez muscular que leva à postura inadequada dos membros (mãos fechadas, pés em garra…), causa dor, dificuldade para executar atividades corriqueiras (caminhar, comer…) e, consequentemente, reduz a qualidade de vida, aumenta a sobrecarga do cuidador e eleva o risco de quedas — sem contar os impactos econômicos e financeiros.

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Recentemente, realizamos um estudo multicêntrico e observacional envolvendo 11 centros de reabilitação do país (públicos e privados) com 204 voluntários, o BCause. O objetivo era avaliar a taxa de resposta dos pacientes com espasticidade crônica ao tratamento com toxina botulínica A. Descobrimos dados preocupantes nesse contexto: cerca de 45% dos pacientes recebem o encaminhamento para reabilitação tardiamente. O tempo mediano de espera para o agendamento de uma consulta é de nove meses.

Isso acontece por uma série de fatores, como a distância e a dificuldade de transporte até o centro de reabilitação, o tempo despendido para chegar ao centro e problemas para agendar a consulta, entre outras questões. Além disso, infelizmente, pacientes, familiares e profissionais de saúde desconhecem ou subestimam os efeitos da reabilitação no pós-AVC.

Por vezes, o encaminhamento para a reabilitação não acontece porque os profissionais que atendem o paciente na hora do evento agudo não sabem da existência e das possibilidades de encaminhamento para os centros de reabilitação, tanto na rede privada como na rede pública.

De acordo com o Ministério da Saúde, são mais de 400 mil casos por ano e 100 mil óbitos no Brasil, sendo que, a cada cinco minutos, ocorre uma morte decorrente de AVC. Por isso, precisamos repensar a forma com que encaramos a doença e adotar medidas mais consistentes de prevenção, controle e tratamento.

* Marcelo Riberto é médico fisiatra e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP); Regina Fornari Chueire é médica fisiatra da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto

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