De pandemias a infartos, os riscos das mudanças climáticas para a saúde

Vem aí um planeta mais inflamável, com longas secas e, nos intervalos entre elas, chuvas torrenciais que podem provocar enchentes e outros desastres. Com as dificuldades impostas pelo aquecimento global, o alimento custará (ainda mais) caro e o cenário será perfeito para a transmissão de vírus, bactérias e a piora de doenças respiratórias

O intuito do texto não é ser alarmista sem necessidade: as projeções do último relatório do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado recentemente, são mesmo dignas de preocupação. 

O documento, resultado de um esforço de centenas de cientistas, que revisaram mais de 14 mil estudos, mostra que a atividade humana está aquecendo o planeta em ritmo acelerado. O aumento da termostato, causado pela emissão de poluentes, queima de combustíveis e outros fatores, como o desmatamento, já é, em parte, irreversível. 

“Quer dizer, mesmo que a gente reduza a emissão de poluentes daqui pra frente, a tendência é que a temperatura atmosférica e dos oceanos aumente, então precisamos pensar em adaptação a um cenário que parece inevitável”, aponta Christovam Barcellos, coordenador do Observatório Clima e Saúde, da Fiocruz. 

E o que isso tem a ver com saúde? Tudo. Como se sabe, meio ambiente e corpo humano estão muito relacionados. Para ter ideia, a Organização Mundial da Saúde (OMS), calcula que as mudanças climáticas provoquem ao menos 150 mil mortes ao ano (cálculo feito antes do relatório do IPCC), número que deve dobrar até 2030. 

Com a ajuda dos especialistas, elencamos alguns dos principais impactos das mudanças climáticas na saúde. 

Extremos de temperatura e umidade 

Sempre que o ar está muito seco ou úmido, e a temperatura muito alta ou baixa, o organismo funciona sob estresse. “Com a combinação de calor e umidade elevadas, o corpo tem dificuldade para regular a própria temperatura”, explica o pneumologista Ubiratan de Paula Santos, do Instituto do Coração (Incor) da Universidade de São Paulo (USP)

Já com a secura (quando a umidade do ar fica abaixo dos 30%), desidratamos sem perceber. “O resultado disso é um desequilíbrio dos sais minerais que regulam a circulação, o que altera o funcionamento do músculo cardíaco, do cérebro, dos rins, entre outros órgãos”, pontua de Paula. 

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A situação pode ser perigosa. “Internações e óbitos por infarto ou acidente vascular cerebral aumentam nesses extremos”, comenta Santos. 

Veja, nós temos a capacidade de nos adaptar às variações térmicas. Mas, quando fica muito calor por semanas a fio ou, ainda, quando a mudança de temperatura é brusca, essa habilidade é reduzida. Idosos, crianças e portadores de doenças cardiovasculares ou autoimunes estão mais sujeitos a quadros sérios em dias assim. 

E levante a mão o brasileiro que não viveu todas as estações do ano no mesmo dia! 

Mais crises de doenças respiratórias

Poluição e clima conversam muito. Ora, se a poluição afeta a camada de ozônio e aquece o globo terrestre, fatores climáticos podem piorar os efeitos da sujeira do ar tanto na atmosfera quanto no corpo. Em períodos secos, os poluentes ficam mais tempo suspensos no ar. 

“Isso dificulta a respiração, pois o ar precisa ser umidificado pelo pulmão para ser aproveitado pelo organismo, piorando quadros já existentes, como asma ou bronquite. Fora que facilita o aparecimento de infecções, porque o muco que protege as vias áreas fica mais espesso”, elenca o pneumologista do Incor. 

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Ainda no tópico pulmão, vale destacar que, nos meses secos, o Brasil sofre com as queimadas, que ficam maiores a cada ano. “Quem está respirando esse ar, capaz de viajar por centenas de quilômetros do foco dos incêndios, pode ter seu sistema imune afetado e sofrer inflamações no sistema respiratório”, pontua Barcellos. 

Aliás, o especialista da Fiocruz coordenou um estudo sobre a interação entre as queimadas e a Covid-19. “A coexistência dos problemas traz impactos negativos para a saúde pública, tanto porque o comprometimento das vias aéreas provocado pelas queimadas pode ser uma porta de entrada para o coronavírus, como porque há uma competição por leitos em cidades atingidas pelos dois”, destaca Barcellos, que pesquisa os efeitos da mudança climática no país desde 2008. 

Risco de novas pandemias e mais doenças infecciosas

Falando em Covid-19, existe outro elo entre aquecimento global e epidemias. “A elevação da temperatura, além da ação do homem na diminuição das florestas, leva a uma perda da biodiversidade. Afinal, nem toda espécie sobrevive às mudanças, e algumas populações de vetores de doença crescem, em detrimento de outras”, explica Barcellos. 

Estamos falando de mosquitos que carregam vírus, insetos como o que transmite a doença de Chagas, e mesmo de potenciais reservatórios de patógenos que se espalham entre humanos. “Uma das teorias estudada na China diz que o coronavírus pode ter surgido em algum animal selvagem que migrou para as bordas das cidades”, aponta o especialista. 

Por fim, em um cenário de crise hídrica, a busca por fontes alternativas de água, como poços artesianos, e o armazenamento improvisado do líquido tendem a facilitar o contato com micro-organismos que provocam diarreias e outras encrencas. 

A preocupação com a secura do solo e a diminuição de chuvas e suas consequências para a saúde humana é maior para as regiões Amazônica, Centro-Oeste e Nordeste, mas não só. “Um dos efeitos da crise hídrica de São Paulo entre 2014 e 2015 foi o aumento dos casos de dengue”, lembra Barcellos. 

Brasil precisa ouvir o alerta 

A Organização das Nações Unidas (ONU) classifica o relatório do IPCC como um “alerta vermelho” soando para a humanidade. É possível realizar ações individuais para nos protegermos das mudanças climáticas, mas o poder delas é bem limitado.

“A primeira coisa é não deixar de fazer exercícios, mesmo nas estações secas e com temperaturas altas ou baixas. Mas, nesses casos, priorizar atividades leves e moderadas, de preferência com orientação médica”, pontua Santos. Melhorar o conforto térmico, investir em umidificadores de ar ou espalhar bacias em dias secos, não fumar e cuidar da saúde no geral são outras medidas que até ajudam, mas não farão milagre frente a um ambiente cada vez mais inóspito.

“Se quisermos evitar o agravamento da situação, precisamos agir coletivamente”, destaca o médico.

“Esse relatório é uma provocação para cada país adotar estratégias que mitiguem os impactos e, nesse ponto, nós estamos muito mal”, concorda Barcellos. “Já tivemos protagonismo nas políticas públicas contra mudanças climáticas, mas essa rede foi sendo desmantelada nos últimos anos”, lamenta.

Um novo relatório do IPCC, previsto para fevereiro de 2022, vai focar especialmente nas consequências das mudanças do clima para a humanidade, com dados atualizados sobre os pontos que discutimos aqui, e outros que rendem muitos outros assuntos, como a insegurança alimentar e o abalo da saúde mental frente aos desastres naturais e as crises. 

Até lá, já temos motivos suficientes para cuidar melhor do planeta. 

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