Não se trata a obesidade sozinho! É preciso envolver quem está ao redor

No meu livro Histórias de Peso – A Obesidade Como Ela É (Vigia Editora), falo sobre um aspecto pouco abordado da obesidade: a solidão. Pessoas acima do peso não raro se sentem sozinhas. E isso se manifesta de várias maneiras.

Nem sempre percebemos, mas isolar no grupo social quem tem obesidade é um comportamento comum. A criança não é convidada para brincar ou jogar, o adolescente fica sem dançar na festa, o adulto só é legal se for alegre ou engraçado. São manifestações de um tipo de preconceito que chamamos de gordofobia.

Felizmente, hoje vejo um esforço para mudar isso na escola, nas empresas e até na mídia ao abrir um espaço como este.

Mas a solidão também está dentro de casa: ao fazer o tratamento da obesidade, é comum a pessoa sentir falta de apoio familiar. O paciente encara o plano alimentar ou a rotina pós-cirurgia bariátrica sozinho, enquanto os demais integrantes da família não renunciam à pizza, ao churrasco e à sobremesa.

Outras vezes, a pessoa se torna refém de um relacionamento abusivo. Relato no livro casos de pacientes que decidiram se separar após o tratamento, pois, junto com a saúde, recuperaram a autoestima.

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É preciso esclarecer, antes de tudo, que a obesidade não é uma escolha nem resultado do desleixo com o próprio corpo, como imaginam alguns. Trata-se de uma realidade para quatro em cada dez brasileiros, segundo o IBGE.

O ganho de peso é desencadeado por fatores como genética, ansiedade, estresse, cultura alimentar, uso de medicamentos e até baques emocionais. Não existe uma causa só: a obesidade é multifatorial. Adicionem-se uma vida sedentária e a superoferta de junk food, a comida com muita caloria e poucos nutrientes, e a equação está formada.

É necessário dizer, ainda, que ninguém precisa ser magro por imposição de um padrão longilíneo de beleza. Cada corpo tem a sua constituição própria, e, como médico, afirmo que a saúde é o essencial.

Na abordagem da obesidade, o que precisa ser levado em conta é a qualidade de vida do paciente e o risco de doenças ligadas à gordura corporal, como diabetes, hipertensão e mais de 30 tipos de câncer. Sempre insisto: ser obeso não é defeito e ser magro não é qualidade.

Mas o que quero destacar aqui é que precisamos atacar a solidão também no tratamento da obesidade. Em primeiro lugar, porque é um caso para endocrinologista, nutrólogo, psicólogo, nutricionista, profissional de educação física e, quando necessário, cirurgião bariátrico e plástico. Todos juntos. Desconfie quando alguém oferecer sozinho o tratamento da obesidade, pois ele é multidisciplinar.

E, principalmente, porque não se cuida apenas de um paciente, mas de um ambiente. O ecossistema ao redor da pessoa precisa participar: companheiro, companheira, filhos, pais, avós, amigos, escola, colegas de trabalho, todo mundo. Até os programas de fim de semana, os vídeos assistidos no YouTube e os perfis seguidos nas redes sociais, tudo isso é recomendável readaptar para tirar o protagonismo da comida.

Quando fiz a minha cirurgia bariátrica, recebi manifestações de carinho materializadas nos caldos preparados pela minha mulher e pelo meu pai e até na proposta dos meus filhos para mudar a ceia de Natal da casa inteira, já que fui operado perto das festas de fim de ano. Não podemos jogar nas costas do paciente o peso de encarar sozinho o tratamento da obesidade. A chance de sucesso aumenta quando o engajamento é de todos.

* Felipe Koleski é cirurgião bariátrico e do aparelho digestivo, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) e autor do livro Histórias de Peso – A Obesidade como Ela É (Vigia Editora)

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