Por que é importante descobrir a origem do novo coronavírus

No início de fevereiro de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou uma missão na China para descobrir a real origem do novo coronavírus e onde ele infectou seres humanos pela primeira vez. Especialistas de diversas áreas e nacionalidades passaram duas semanas no país investigando a cidade de Wuhan e arredores. Apesar de os primeiros casos da pandemia terem sido detectados nessa região ainda em 2019, não se sabe se o Sars-CoV-2 surgiu ali. Mas por que é tão importante conhecer isso mesmo agora que a Covid-19 se espalhou pelo mundo?

Para responder essa questão, antes é importante entender o que a comunidade científica já descobriu e quais as principais hipóteses do momento. Por enquanto, o único consenso é o de que o Sars-CoV-2 se originou dentro de morcegos (não, ele não surgiu em laboratórios). A conclusão veio a partir do sequenciamento genômico do agente infeccioso.

Daí em diante, não há uma certeza de como o coronavírus pulou para seres humanos. Em uma entrevista coletiva realizada após o fim daquela expedição da OMS na China, os pesquisadores apontaram os dois caminhos mais plausíveis, e que seguem sendo avaliados.

Primeira hipótese: transmissão por um hospedeiro intermediário

A lógica é simples: o novo coronavírus saiu de morcegos para outro animal. E esses bichos infectados — ainda não identificados pelos cientistas — teriam entrado em contato com seres humanos, o que possibilitou a infecção.

O principal argumento para justificar a teoria é o histórico de outros coronavírus. Lembre-se de que o Sars-CoV-2 é só o irmão mais novo da família. As epidemias de Sars e Mers foram ocasionadas por outros membros dessa turma. E inúmeros casos de resfriado no Brasil e no mundo também decorrem de outros tipos de coronavírus

Pois bem: segundo o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo e autor do blog Virosfera, os coronavírus por trás da Sars e da Mers também apareceram em morcegos antes de contaminar os hospedeiros intermediários — civetas e dromedários, respectivamente. “Esse é um caminho já usado naturalmente pelos coronavírus”, reforça o especialista.

Acontece que, segundo Peter Ben Embarek, especialista em segurança alimentar e zoonoses da OMS e líder da missão, os cientistas chineses testaram vários animais domésticos e selvagens no país, porém não encontraram evidências contundentes de que o Sars-CoV-2 estivesse presente em algum deles. Mais estudos sobre o assunto estão em andamento.

Segunda hipótese: contaminação por alimentos congelados

Essa tese está relacionada à suspeita de que o novo coronavírus, na verdade, não nasceu em Wuhan. Brandão conta que, desde a década de 1940, linhagens ancestrais do Sars-CoV-2 estavam presentes em morcegos no sudeste asiático, uma região da qual a China não faz parte.

“Ainda que não tenhamos o exato reservatório do vírus que originou os primeiros casos de Covid-19, essa informação demonstra que ele não necessariamente surgiu na China”, raciocina o virologista.

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Nesse cenário, uma linhagem ancestral teria se transformado no Sars-CoV-2 que conhecemos hoje em morcegos do sudeste asiático. Esses morcegos teriam então infectado algum outro animal. Só que, aí, esse bicho teria sido abatido, congelado e, posteriormente, consumido por um ser humano, o que possibilitaria a infecção.

“Isso significaria que Wuhan teria sido apenas a ponta do iceberg”, analisa Brandão.

Mas não se sabe se o responsável pela Covid-19 conseguiria sobreviver em baixíssimas temperaturas, como as necessárias para manter uma comida devidamente congelada.

Cientistas de várias instituições em Singapura e na Irlanda buscaram a resposta para essa pergunta. Eles colocaram o vírus em pedaços de porco, frango e salmão refrigerados a 4°C e congelados a -20°C. Após 21 dias, constataram que não houve queda na carga viral.

Só que o estudo tem limitações. Entre elas, há o fato de que o experimento foi feito dentro de um laboratório, um ambiente altamente controlado. Não dá para saber ao certo se, nas condições da vida real, o resultado seria semelhante.

Por fim, nada indica que a carga viral encontrada nos testes seja suficiente ou capaz de infectar alguém.

Conclusão: são necessárias investigações adicionais para revelar como o Sars-CoV-2 infectou seres humanos pela primeira vez — embora estejamos mais perto de uma resposta.

Mas afinal, por que é importante ter essa informação?

Em um artigo de opinião publicado no periódico científico The Lancet, três razões para continuar a averiguação são levantadas por Peter Ben Embarek.

  1. Com uma confirmação, é possível adotar medidas para minimizar contatos próximos entre esses animais e as pessoas, o que evitaria a reintrodução humana da Covid-19 no futuro.
  2. Descobrir a origem da enfermidade em humanos ajudaria a prevenir que outras pandemias com características semelhantes acontecessem ou se tornassem tão intensas.
  3. “Se pudermos encontrar o Sars-CoV-2 como ele era antes de chegar à população, estaremos em uma posição favorável para desenvolver tratamentos e vacinas mais eficientes”, afirmou Embaraek no documento.

Brandão acrescenta que a detecção dos hospedeiros intermediários foi um dos fatores que levou ao efetivo controle da Sars e da Mers. “A partir dali, as autoridades realizaram ações de controle que levaram à diminuição de exposição a pessoas. Com a Covid-19, espera-se o mesmo resultado”, arremata.

E não estranhe: esse processo de descoberta é longo e complexo mesmo. A própria OMS ressalta que ele pode demorar anos.

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