Campanha Nacional de Multivacinação segue até 1º de setembro e inclui novo reforço da vacina inativada contra a pólio aos 4 anos; estratégia busca recuperar esquemas atrasados e reduzir risco de circulação de doenças preveníveis
A poliomielite, conhecida popularmente como paralisia infantil, voltou ao centro das ações de prevenção no Brasil em agosto de 2026. Embora o país não registre circulação autóctone do poliovírus selvagem há décadas, autoridades sanitárias reforçam que manter crianças adequadamente imunizadas é essencial para preservar essa conquista e diminuir o risco de reintrodução da doença.
Neste mês, o Ministério da Saúde realiza a Campanha Nacional de Multivacinação 2026, voltada para crianças e adolescentes menores de 15 anos que precisam atualizar a caderneta. A mobilização começou em 3 de agosto, segue até 1º de setembro e terá um Dia D nacional em 22 de agosto. Ao todo, estão disponíveis 20 imunizantes previstos no Calendário Nacional de Vacinação.
Entre as doenças contempladas pela estratégia está justamente a poliomielite. A campanha ocorre em um momento de mudança no esquema infantil: desde 3 de agosto, o Brasil passou a oferecer um segundo reforço da vacina inativada poliomielite (VIP) para crianças aos 4 anos.
O que mudou na vacinação contra a poliomielite?
Com a atualização, o esquema contra a pólio passa a ser formado por três doses da VIP administradas aos 2, 4 e 6 meses de idade, seguidas por reforços aos 15 meses e aos 4 anos.
A aplicação é feita por injeção intramuscular. A VIP já havia substituído, em 2024, a tradicional vacina oral contra a poliomielite, popularmente conhecida como “gotinha”.
A adoção exclusiva da vacina inativada acompanha recomendações internacionais para a etapa final de erradicação mundial da doença. Por utilizar vírus inativados, o imunizante não tem capacidade de provocar infecção pelo poliovírus vacinal.
A introdução do segundo reforço aos 4 anos busca fortalecer a proteção das crianças e garantir que o esquema permaneça adequado durante uma fase importante da infância.
Por que ainda é preciso vacinar contra uma doença que desapareceu do Brasil?
Uma das dificuldades enfrentadas pelos programas de imunização é justamente o sucesso das próprias vacinas. Quando uma doença deixa de fazer parte do cotidiano, novas gerações de pais e responsáveis podem passar a considerá-la uma ameaça distante.
No caso da poliomielite, isso pode ser perigoso porque a eliminação da circulação do vírus em determinado país não significa necessariamente sua erradicação mundial.
Enquanto o poliovírus continuar circulando em alguma região do planeta, existe possibilidade de deslocamento internacional e reintrodução em populações suscetíveis. A proteção coletiva depende, portanto, da manutenção de coberturas vacinais elevadas.
A campanha brasileira de 2026 busca justamente resgatar crianças com doses atrasadas e completar esquemas de vacinação, reduzindo bolsões de pessoas vulneráveis não apenas à pólio, mas também a outras doenças imunopreveníveis.
Meta histórica contra a pólio é de 95%
A cobertura de referência utilizada nas estratégias contra a poliomielite é de 95% do público-alvo. Esse patamar é importante porque dificulta a formação de grandes grupos de crianças suscetíveis caso o vírus seja introduzido em determinada comunidade.
Coberturas nacionais também podem esconder diferenças importantes entre municípios. Uma média elevada no país não significa necessariamente que todas as cidades ou bairros tenham proteção semelhante.
Em São José do Rio Preto, por exemplo, dados divulgados antes do início da campanha apontavam cobertura de 90,32% para poliomielite, abaixo do patamar de 95%.
Por isso, uma das prioridades das campanhas é localizar crianças que não receberam alguma dose e corrigir esquemas incompletos.
Poliomielite pode provocar paralisia irreversível
A pólio é uma doença contagiosa causada pelo poliovírus. A infecção pode ocorrer sem sintomas ou apresentar manifestações semelhantes às de outras doenças virais.
Em uma parcela dos pacientes, entretanto, o vírus pode atingir o sistema nervoso e provocar formas graves da doença.
A consequência mais conhecida é a paralisia flácida, que pode comprometer principalmente os membros inferiores. Em casos graves, músculos envolvidos na respiração também podem ser afetados.
Não existe tratamento capaz de reverter a paralisia causada pela poliomielite. É justamente por isso que a vacinação ocupa papel central na estratégia de controle e erradicação.
Brasil aposta em multivacinação para recuperar doses atrasadas
A campanha de agosto não é exclusiva contra a poliomielite. O objetivo é aproveitar a ida das famílias aos postos para verificar toda a situação vacinal de crianças e adolescentes.
A mobilização disponibiliza vacinas contra doenças como poliomielite, sarampo, meningites, febre amarela, hepatites e HPV, entre outras previstas para diferentes faixas etárias.
Os profissionais de saúde devem verificar a caderneta individualmente e identificar quais imunizantes estão atrasados ou precisam ser administrados de acordo com a idade.
A estratégia pretende evitar que responsáveis precisem identificar sozinhos quais doses estão faltando. A avaliação pode ser realizada diretamente pelas equipes das unidades de saúde.
Dia D será realizado em 22 de agosto
Um dos principais momentos da mobilização será o Dia D de Multivacinação, marcado para sábado, 22 de agosto.
A data pretende facilitar o acesso principalmente para famílias que encontram dificuldade para levar crianças às unidades durante os dias úteis.
Em diferentes cidades, postos e unidades básicas deverão ampliar o funcionamento. Em Bauru, por exemplo, UBSs e unidades de Saúde da Família estarão abertas das 8h às 17h no Dia D.
A mobilização nacional continuará depois dessa data e será encerrada em 1º de setembro.
Desinformação continua sendo desafio para vacinação
Além das dificuldades logísticas, o país enfrenta outro obstáculo: a circulação de informações falsas sobre vacinas.
Conteúdos enganosos nas redes sociais podem aumentar a insegurança de pais e responsáveis e contribuir para atrasos na imunização.
Há também um fenômeno diferente: a redução da percepção de risco. Como muitas pessoas nunca presenciaram casos de poliomielite, sarampo ou outras doenças controladas pela vacinação, elas podem considerar desnecessário continuar imunizando os filhos.
Esse raciocínio ignora que a ausência dessas doenças está diretamente relacionada às campanhas de vacinação realizadas durante décadas.
Pais devem verificar a caderneta das crianças
Durante a campanha, a recomendação é que pais e responsáveis levem crianças e adolescentes menores de 15 anos às unidades de saúde para avaliação da situação vacinal.
O foco está principalmente em quem possui doses atrasadas ou esquemas incompletos. Não significa que todas as crianças receberão todos os imunizantes disponíveis.
Cada caso deve ser avaliado conforme idade, histórico de vacinação e eventuais contraindicações.
No caso específico da poliomielite, a principal novidade de 2026 é a inclusão do segundo reforço da VIP aos 4 anos.
Manter a pólio longe do Brasil depende de vacinação contínua
A experiência brasileira demonstra a capacidade das vacinas de transformar o cenário epidemiológico. A poliomielite, que durante décadas provocou medo entre famílias e deixou milhares de pessoas com sequelas, deixou de circular de forma endêmica no país.
Preservar esse resultado, porém, exige continuidade.
A Campanha Nacional de Multivacinação de 2026 procura recuperar esquemas atrasados antes que bolsões de baixa cobertura se transformem em uma vulnerabilidade maior.
A mensagem das autoridades de saúde é simples: uma doença controlada não é necessariamente uma doença que deixou de representar risco para sempre. Enquanto houver circulação do poliovírus no mundo, vacinação e vigilância epidemiológica continuarão sendo fundamentais para impedir seu retorno ao Brasil.
Fontes: Ministério da Saúde — Campanha Nacional de Multivacinação 2026 · Folha de S.Paulo — novo reforço contra poliomielite e campanha de 2026 · Governo de Goiás — Campanha Nacional de Multivacinação