Testes medem biomarcadores relacionados à doença e podem auxiliar a investigação de pacientes com sintomas, mas não funcionam como diagnóstico isolado.
Exames de sangue capazes de identificar biomarcadores associados à doença de Alzheimer começam a ganhar espaço na prática clínica brasileira e já podem ser encontrados na rede privada. Os testes analisam no sangue alterações relacionadas principalmente às proteínas beta-amiloide e tau, duas das principais marcas biológicas estudadas na doença. A novidade oferece aos médicos uma ferramenta menos invasiva para auxiliar a investigação de pessoas que apresentam sintomas de comprometimento cognitivo, como alterações progressivas de memória, linguagem e raciocínio.
A possibilidade de investigar essas alterações por uma simples coleta de sangue representa uma mudança importante. Durante anos, a confirmação da presença de biomarcadores do Alzheimer dependeu principalmente de exames como PET cerebral ou análise do líquido cefalorraquidiano obtido por punção lombar. Os testes sanguíneos prometem tornar parte dessa investigação mais acessível, embora os preços no mercado privado brasileiro possam chegar a alguns milhares de reais. A chegada da tecnologia também exige cautela: um resultado alterado não deve ser interpretado sozinho como diagnóstico definitivo de Alzheimer, principalmente em pessoas sem sintomas.
Como o exame de sangue consegue identificar sinais associados ao Alzheimer?
A doença de Alzheimer provoca alterações biológicas no cérebro que podem começar anos antes de manifestações clínicas mais evidentes. Entre as características mais estudadas estão o acúmulo de placas formadas pela proteína beta-amiloide e alterações relacionadas à proteína tau. O desenvolvimento de exames sanguíneos tornou possível procurar indiretamente algumas dessas mudanças por meio da medição de biomarcadores presentes na circulação.
Um dos marcadores que ganhou importância nos últimos anos é a tau fosforilada, encontrada em diferentes formas, como p-tau217 e p-tau181. Estudos científicos indicam associação entre determinadas concentrações desses biomarcadores e alterações cerebrais características da doença de Alzheimer. Outros testes avaliam a relação entre formas da beta-amiloide, como Aβ42 e Aβ40, oferecendo informações adicionais para a investigação clínica.
A grande vantagem está na simplicidade da coleta. Um exame de sangue é consideravelmente menos invasivo do que uma punção lombar e tende a ser mais simples e potencialmente mais barato do que exames avançados de imagem. Isso abre a possibilidade de utilizar biomarcadores em um número maior de pacientes que realmente apresentam indicação para investigação.
Essa facilidade, entretanto, não transforma o teste em uma espécie de exame comum de rotina. Alzheimer é uma doença complexa, e alterações de memória podem possuir diversas causas, incluindo outras doenças neurológicas, transtornos psiquiátricos, alterações metabólicas, efeitos de medicamentos e distúrbios do sono. O resultado laboratorial precisa ser interpretado dentro de um conjunto muito maior de informações clínicas.
Quem deve fazer o teste e ele confirma sozinho o diagnóstico?
Os exames sanguíneos são especialmente promissores como ferramentas auxiliares para pessoas que já apresentam sinais de comprometimento cognitivo e estão sendo investigadas por um profissional. O processo diagnóstico normalmente começa com avaliação clínica, histórico do paciente, informações fornecidas por familiares, testes cognitivos e, dependendo da situação, exames laboratoriais e de imagem.
Por isso, especialistas alertam contra a realização indiscriminada do teste em pessoas saudáveis e sem sintomas apenas para descobrir se poderão desenvolver Alzheimer no futuro. A presença de determinados biomarcadores não significa necessariamente que uma pessoa desenvolverá demência em determinado prazo. Um resultado obtido sem indicação adequada também pode gerar ansiedade e levar a interpretações equivocadas.
Outro ponto importante é distinguir biomarcador de diagnóstico clínico. O exame pode fornecer evidências de alterações biológicas compatíveis com Alzheimer, mas o diagnóstico depende da interpretação de um médico que considere sintomas, evolução do quadro e outros possíveis diagnósticos. Dependendo do resultado e da situação do paciente, exames adicionais ainda podem ser necessários.
Essa cautela tornou-se ainda mais relevante à medida que testes sanguíneos ganharam reconhecimento internacional. Em 2025, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, autorizou o primeiro exame sanguíneo destinado a auxiliar no diagnóstico da doença de Alzheimer. O teste mede a proteína p-tau217 em relação à beta-amiloide 1-42 e foi destinado a adultos com 55 anos ou mais que apresentam sinais e sintomas da doença. A própria FDA ressaltou que o resultado deve ser interpretado em conjunto com outras informações clínicas.
O que muda para pacientes brasileiros com a chegada desses exames?
No Brasil, alguns exames baseados nesses biomarcadores já podem ser encontrados em laboratórios da rede privada. Os valores variam conforme o teste e o estabelecimento e podem chegar a aproximadamente R$ 5 mil, segundo levantamento publicado pela imprensa brasileira. O preço elevado ainda limita o acesso e mostra que a disponibilidade tecnológica não significa necessariamente acesso amplo à população.
A tendência, entretanto, é que a expansão das evidências científicas e da utilização desses biomarcadores modifique progressivamente a investigação da doença. Uma coleta de sangue pode facilitar a seleção dos pacientes que realmente necessitam de exames mais complexos, como PET ou análise do líquido cefalorraquidiano, evitando procedimentos desnecessários em determinados casos. Também pode contribuir para tornar o processo diagnóstico mais rápido quando utilizado dentro de protocolos médicos adequados.
O diagnóstico mais preciso ganhou importância adicional com o desenvolvimento de medicamentos direcionados aos mecanismos biológicos da doença. Terapias que atuam sobre depósitos de beta-amiloide exigem identificação adequada dos pacientes e confirmação de alterações compatíveis antes do início do tratamento. Nesse cenário, biomarcadores sanguíneos podem se tornar parte importante da seleção e do acompanhamento de pessoas potencialmente elegíveis para determinadas terapias.
Ainda existem, porém, desafios relacionados à padronização dos testes, definição de valores de referência e interpretação em diferentes populações. Idade, doenças renais e outras condições podem interferir nas concentrações de alguns biomarcadores. É por isso que sociedades científicas e autoridades regulatórias defendem critérios claros para definir quando e como esses exames devem ser utilizados.
Para pacientes e familiares, a chegada dos testes não muda uma recomendação fundamental: alterações persistentes de memória ou de outras funções cognitivas precisam ser avaliadas por um profissional de saúde. Esquecer compromissos repetidamente, perder-se em locais conhecidos, apresentar dificuldade crescente para realizar tarefas habituais ou demonstrar mudanças importantes de linguagem e raciocínio são situações que merecem investigação.
Os exames de sangue representam uma das transformações mais promissoras no diagnóstico do Alzheimer nos últimos anos. Eles podem reduzir a dependência de procedimentos mais invasivos e tornar a identificação dos biomarcadores da doença mais simples. Mas sua maior utilidade está justamente no uso criterioso: como parte de uma avaliação médica completa, e não como teste isolado para prever o futuro de pessoas saudáveis.
A evolução dessa tecnologia deverá ser acompanhada de novas evidências sobre precisão, custo e acesso. Se os preços diminuírem e os protocolos forem consolidados, os biomarcadores sanguíneos poderão ocupar um espaço cada vez maior na investigação do Alzheimer no Brasil. Até lá, a novidade deve ser vista como uma ferramenta adicional para médicos e pacientes, e não como um exame capaz de fornecer sozinho uma resposta definitiva sobre a doença.
Fontes:
Folha de S.Paulo — exames de sangue para Alzheimer no Brasil · FDA — primeiro exame de sangue autorizado para auxiliar no diagnóstico de Alzheimer · Alzheimer’s Association — informações sobre diagnóstico e testes · National Institute on Aging — diagnóstico da doença de Alzheimer