Número de pacientes na espera chama atenção para doação, desigualdades regionais e capacidade da rede de transplantes de devolver a visão.
O Brasil chegou a quase 38 mil pessoas aguardando um transplante de córnea, segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026. O tamanho da fila chama atenção porque o transplante pode representar recuperação significativa da visão para pacientes que apresentam doenças ou lesões capazes de comprometer a transparência e a integridade da córnea. A lista é administrada dentro do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), estrutura do Ministério da Saúde responsável por coordenar e acompanhar a doação e os transplantes de órgãos, tecidos e células no país. (Agência Brasil)
O número também levanta uma questão importante para pacientes e familiares: por que tanta gente ainda precisa esperar por uma córnea no Brasil? A resposta não está apenas na quantidade de doadores. O funcionamento do sistema depende da identificação dos potenciais doadores, autorização familiar quando aplicável, captação, processamento pelos bancos de tecidos oculares, avaliação da qualidade do material e capacidade das equipes habilitadas para realizar os procedimentos. Além disso, a realidade pode variar significativamente entre diferentes regiões brasileiras. (Serviços e Informações do Brasil)
Por que quase 38 mil brasileiros estão esperando por uma córnea?
A córnea é a estrutura transparente localizada na parte anterior do globo ocular e desempenha uma função essencial na formação da visão. Ela funciona como uma espécie de lente que ajuda a direcionar a luz para a retina. Quando perde sua transparência ou apresenta alterações importantes em sua curvatura e integridade, a visão pode ficar embaçada ou desfocada e, em situações mais graves, o comprometimento visual pode ser profundo. (Serviços e Informações do Brasil)
O transplante é indicado quando determinadas doenças ou lesões produzem alterações corneanas que não podem ser adequadamente solucionadas por outros tratamentos. O Ministério da Saúde relaciona entre as condições que podem justificar a inscrição eletiva na lista ceratocone, ceratopatia bolhosa, leucoma, distrofia de Fuchs, outras distrofias corneanas, ceratite intersticial, degenerações da córnea, queimaduras oculares, anomalias congênitas e determinadas falências de transplantes anteriores. (Serviços e Informações do Brasil)
Diferentemente de alguns órgãos, as córneas podem ser retiradas, processadas e armazenadas por bancos especializados antes de serem destinadas ao transplante. Os Bancos de Tecidos Oculares Humanos são responsáveis pela busca de doadores, retirada e processamento de córnea e esclera. O material precisa passar por procedimentos técnicos e de segurança antes de ser liberado para utilização em um receptor. (Serviços e Informações do Brasil)
É justamente essa cadeia que ajuda a entender por que a quantidade de cirurgias não depende exclusivamente da existência de pacientes e médicos. O sistema precisa funcionar de forma coordenada desde a identificação de um potencial doador até a chegada do tecido adequado à equipe transplantadora. Capacidade hospitalar, funcionamento dos bancos de olhos, logística, equipes disponíveis e distribuição regional da estrutura interferem diretamente na velocidade com que a fila pode avançar.
Como funciona a fila e quem tem direito ao transplante?
O paciente que necessita de um transplante precisa ser encaminhado a um estabelecimento autorizado, passar por avaliação de uma equipe médica especializada e realizar os exames necessários. Confirmada a indicação, a própria equipe responsável providencia a inscrição na lista do Sistema Nacional de Transplantes. O cadastro reúne informações clínicas necessárias para organizar a seleção dos receptores. (Serviços e Informações do Brasil)
Segundo o serviço oficial do governo federal, a posição na lista considera fatores como ordem de inscrição, gravidade e urgência da situação e compatibilidade com o doador existente. Portanto, a fila não deve ser interpretada simplesmente como uma sequência numérica em que todas as pessoas avançam da mesma maneira. Características clínicas e critérios estabelecidos pelo sistema interferem na seleção para cada transplante. (Serviços e Informações do Brasil)
Desde 2026, pacientes também contam com uma ferramenta adicional para acompanhar a espera. O Ministério da Saúde disponibilizou no Meu SUS Digital acesso às informações relacionadas à posição do usuário na fila do Sistema Nacional de Transplantes. Para consultar os dados, é necessário autenticar-se pelo Gov.br e acessar o Mini App “Transplante”. Também existe consulta pela plataforma do SNT mediante as informações exigidas pelo sistema. (Serviços e Informações do Brasil)
A transparência é particularmente importante diante de uma fila de dezenas de milhares de pessoas. O Ministério da Saúde informa que os dados de espera para transplante de córnea são atualizados mensalmente. Permitir que o próprio paciente acompanhe sua situação ajuda a tornar um processo complexo mais compreensível e oferece maior previsibilidade para quem pode permanecer meses aguardando o procedimento. (Serviços e Informações do Brasil)
Os números de transplantes também revelam diferenças entre os estados. Dados oficiais do Ministério da Saúde referentes ao primeiro quadrimestre de 2026 mostram variações expressivas na quantidade de procedimentos cirúrgicos envolvendo órgãos sólidos e córneas por milhão de habitantes. São Paulo registrou 62,1 procedimentos por milhão de habitantes no período, enquanto Ceará alcançou 57,4, Pernambuco 52 e Rio Grande do Sul 51,3. Em algumas unidades da Federação, os índices foram consideravelmente menores. (BVSMS)
O que pode reduzir a fila de transplante de córnea no Brasil?
A expansão da doação é uma parte fundamental da resposta, mas não é a única. É necessário que existam bancos de tecidos capazes de receber e processar as córneas, equipes treinadas para identificar potenciais doadores, infraestrutura hospitalar e serviços habilitados para realizar os transplantes. O Ministério da Saúde mantém uma rede de Bancos de Tecidos Oculares integrada ao sistema nacional, e os estabelecimentos habilitados podem ser consultados por meio do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde. (Serviços e Informações do Brasil)
A comunicação com as famílias também continua sendo um desafio importante dentro da política brasileira de transplantes. Embora os números divulgados nesta semana sobre recusa familiar sejam referentes ao processo mais amplo de doação de órgãos, eles ajudam a demonstrar a dimensão do problema: a taxa média de recusa familiar está em torno de 45%. Em 2025, 4.200 famílias entrevistadas não autorizaram doações, segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes citados pela Agência Brasil. (Agência Brasil)
Para enfrentar parte dessa dificuldade, uma parceria da Associação de Medicina Intensiva Brasileira com o Ministério da Saúde capacitou 2.534 profissionais entre setembro de 2025 e agosto de 2026. Os treinamentos incluem comunicação em situações críticas e gerenciamento do processo de doação e transplante. A iniciativa parte do entendimento de que a forma como familiares são acolhidos e informados pode influenciar a decisão em um momento de grande fragilidade emocional. (Agência Brasil)
Outro desafio é diminuir as desigualdades de acesso. O Brasil possui serviços transplantadores em diferentes estados, mas a capacidade instalada e o número de procedimentos variam bastante. Ampliar equipes habilitadas, fortalecer bancos de tecidos oculares e melhorar a logística de captação e distribuição pode permitir que regiões com filas maiores consigam aumentar a realização de cirurgias sem comprometer os critérios técnicos e de segurança.
A existência de quase 38 mil pessoas esperando uma córnea mostra que o país possui uma demanda significativa por procedimentos capazes de recuperar a visão e a autonomia de milhares de pacientes. Ao mesmo tempo, o Brasil dispõe de uma estrutura nacional organizada para coordenar doações, bancos de tecidos, listas e transplantes. O desafio é fazer com que todas essas etapas funcionem de maneira eficiente e mais equilibrada entre as diferentes regiões.
Para o cidadão, há duas informações especialmente importantes. Quem possui indicação de transplante pode acompanhar sua situação pelos canais oficiais do Sistema Nacional de Transplantes e pelo Meu SUS Digital. Para a sociedade, conversar com familiares sobre a intenção de ser doador continua sendo uma atitude relevante para fortalecer a cultura da doação. Reduzir uma fila dessa dimensão dependerá não apenas de novas tecnologias médicas, mas também de informação, infraestrutura, profissionais preparados e capacidade de transformar potenciais doadores em transplantes efetivamente realizados.
Fontes:
Agência Brasil — Saúde e fila para transplante de córnea · Ministério da Saúde — Sistema Nacional de Transplantes · Ministério da Saúde — córneas e bancos de tecidos · Governo Federal — consultar posição na lista de transplantes · Meu SUS Digital — acompanhamento da fila · Agência Brasil — recusa familiar na doação de órgãos