Aquipta foi autorizado para adultos com pelo menos quatro episódios mensais e amplia opções que atuam diretamente nos mecanismos envolvidos na enxaqueca.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Aquipta, medicamento à base de atogepanto, para prevenção da enxaqueca em adultos. A autorização foi anunciada em 8 de setembro de 2026 e contempla pacientes que apresentam pelo menos quatro episódios mensais da doença. Diferentemente de medicamentos utilizados apenas depois que a dor começa, o novo tratamento tem finalidade preventiva e busca diminuir a frequência das crises.
O atogepanto é administrado por via oral e integra uma geração mais recente de medicamentos desenvolvidos para interferir diretamente em uma das vias relacionadas à fisiopatologia da enxaqueca. A autorização é relevante porque a doença pode comprometer trabalho, estudos, vida social e atividades cotidianas. Segundo a Anvisa, a enxaqueca atinge aproximadamente 15% da população mundial e frequentemente provoca, além da dor moderada ou intensa, náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e ao som.
A aprovação, porém, não significa que o medicamento já possa ser encontrado imediatamente nas farmácias brasileiras. Ainda existem etapas comerciais e regulatórias antes de sua chegada efetiva ao consumidor. Para quem convive com crises frequentes, a principal questão passa a ser: como o atogepanto funciona, quem poderá utilizá-lo e quando estará disponível no Brasil?
Como o atogepanto funciona para prevenir a enxaqueca?
O atogepanto atua bloqueando uma via diretamente envolvida na transmissão da dor e nos mecanismos fisiopatológicos da enxaqueca. Mais especificamente, ele pertence à classe dos chamados gepantos, medicamentos que atuam sobre a via do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, conhecido pela sigla CGRP. Essa molécula participa dos processos relacionados às crises de enxaqueca, tornando-se um dos principais alvos dos tratamentos desenvolvidos mais recentemente.
Durante uma crise, a ativação de determinados mecanismos neurológicos contribui para a liberação de substâncias associadas à transmissão da dor, incluindo o CGRP. O atogepanto bloqueia o receptor dessa molécula, reduzindo a sinalização envolvida no processo. A estratégia é diferente daquela de vários medicamentos preventivos tradicionalmente utilizados contra enxaqueca, que foram originalmente desenvolvidos para outras condições, como hipertensão, epilepsia ou depressão.
A Anvisa destaca justamente esse diferencial. Embora existam alternativas para prevenção das crises, muitas não atuam especificamente nos mecanismos fisiopatológicos da doença. O Aquipta passa, portanto, a representar uma nova alternativa oral especificamente direcionada à prevenção da enxaqueca episódica e crônica.
A autorização brasileira contempla comprimidos de 10 mg e 60 mg, segundo informações divulgadas após a publicação do registro. O tratamento é preventivo e não deve ser confundido com o uso de analgésicos comuns durante uma crise. A definição sobre indicação, dose e duração precisa considerar o quadro de cada paciente e deve ser feita com orientação médica.
O que os estudos mostraram e quem poderá usar o novo medicamento?
A indicação aprovada pela Anvisa é para adultos que apresentam pelo menos quatro episódios mensais de enxaqueca. A agência informou que os estudos realizados durante o desenvolvimento demonstraram redução significativa no número de dias mensais com enxaqueca em comparação ao placebo. Os benefícios foram observados tanto entre pessoas com a modalidade episódica quanto naquelas com a forma crônica da doença.
Entre os estudos de fase 3 utilizados para avaliar o tratamento estão o ADVANCE e o PROGRESS. No ADVANCE, realizado com pacientes com enxaqueca episódica, participantes que receberam 60 mg de atogepanto apresentaram redução de aproximadamente 4,1 dias mensais de enxaqueca, enquanto o grupo placebo teve redução de aproximadamente 2,5 dias. Cerca de 59% dos pacientes tratados alcançaram redução de pelo menos 50% na frequência das crises, contra 29% no placebo.
O PROGRESS avaliou pacientes com enxaqueca crônica. Durante 12 semanas, aqueles que receberam atogepanto 60 mg uma vez ao dia registraram redução média de aproximadamente 6,9 dias mensais de enxaqueca, ante cerca de 5,1 dias entre os participantes que receberam placebo. Os estudos também avaliaram segurança e tolerabilidade, com eventos adversos predominantemente leves ou moderados, incluindo náusea, constipação e fadiga.
Os números ajudam a explicar por que medicamentos direcionados à via do CGRP passaram a ocupar espaço crescente na neurologia. Isso não significa, entretanto, que o novo medicamento seja adequado para todas as pessoas que apresentam dor de cabeça. A enxaqueca é uma doença neurológica e seu diagnóstico deve ser diferenciado de outras formas de cefaleia, algumas das quais podem exigir investigação específica.
O atogepanto também não é o primeiro medicamento dessa nova classe aprovado no Brasil. Em maio de 2026, a Anvisa autorizou o rimegepanto, princípio ativo do Nurtec ODT. Esse medicamento possui indicação tanto para tratamento agudo da enxaqueca com ou sem aura quanto para prevenção da forma episódica em determinados pacientes adultos. Assim como o atogepanto, atua na via do CGRP.
Quando o Aquipta chegará às farmácias e o que muda para os pacientes?
Apesar da aprovação do registro pela Anvisa, ainda não havia uma data definida para a chegada do Aquipta às farmácias brasileiras quando a autorização foi divulgada. O preço também não estava estabelecido. Antes da comercialização, a definição de preço passa pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), responsável pela regulação econômica do mercado farmacêutico brasileiro.
Essa distinção é importante porque aprovação sanitária e disponibilidade comercial são etapas diferentes. A decisão da Anvisa significa que o medicamento passou pela avaliação necessária para obtenção de registro no país dentro da indicação autorizada. Isso não implica que o produto esteja imediatamente disponível nas prateleiras nem que tenha sido incorporado ao Sistema Único de Saúde.
Também não há, neste momento, indicação de que a aprovação pela Anvisa represente incorporação automática ao SUS. Uma eventual disponibilização pelo sistema público envolve outros processos de avaliação, incluindo análise de evidências, impacto orçamentário e decisão sobre incorporação. Portanto, pacientes não devem interpretar o registro sanitário como garantia imediata de fornecimento gratuito.
A chegada de uma nova opção preventiva, entretanto, amplia as possibilidades terapêuticas para pessoas que convivem com crises frequentes. A enxaqueca pode provocar limitações significativas e não deve ser tratada apenas como uma dor de cabeça ocasional. A própria Anvisa a classifica como doença neurológica altamente incapacitante e destaca seus efeitos sobre qualidade de vida, trabalho, vida social e utilização dos serviços de saúde.
O tratamento também não depende exclusivamente de medicamentos. A avaliação médica pode envolver identificação de gatilhos, rotina de sono, atividade física, alimentação e análise do uso de analgésicos. O consumo excessivo de medicamentos para aliviar crises pode, em determinados pacientes, contribuir para cefaleias relacionadas ao abuso de medicação, tornando especialmente importante o acompanhamento profissional.
A aprovação do atogepanto representa mais um passo na mudança do tratamento preventivo da enxaqueca. Durante décadas, muitos pacientes dependeram de medicamentos originalmente criados para outras doenças. A nova geração de terapias procura atingir mecanismos biológicos diretamente relacionados às crises, oferecendo alternativas adicionais para pacientes que não conseguem controle adequado com as opções disponíveis.
Para quem sofre com enxaqueca frequente, porém, o próximo passo não deve ser substituir o tratamento atual por conta própria. A indicação aprovada é específica, e a escolha do medicamento precisa considerar frequência das crises, histórico clínico, tratamentos anteriores, outras doenças e possíveis efeitos adversos. Além disso, ainda será necessário acompanhar a definição de preço e a chegada efetiva do Aquipta ao mercado brasileiro.
Fontes:
Anvisa — aprovação oficial do atogepanto para prevenção da enxaqueca
Agência Brasil — Anvisa aprova novo medicamento para tratamento da enxaqueca
Conselho Federal de Farmácia — como funciona o atogepanto e resultados dos estudos